Publicado originalmente em inglês em 4 de março de 2026
A campanha de intimidação do governo Trump contra Cuba assumiu um rumo mais abertamente predatório em 27 de fevereiro, quando o presidente dos EUA, Donald Trump, mencionou publicamente uma “tomada amigável” da ilha.
Dois dias após guardas de fronteira cubanos repelirem um ataque terrorista armado realizado por uma lancha com a bandeira do estado da Flórida perto da costa norte de Cuba, Trump se recusou novamente a comentar o incidente. Porém, ele declarou a repórteres: “O governo cubano está conversando conosco... E talvez tenhamos uma tomada amigável de Cuba. Podemos muito bem acabar tendo uma tomada amigável de Cuba.”
O governo cubano forneceu posteriormente mais detalhes sobre o confronto de 25 de fevereiro: guardas de fronteira se aproximaram da embarcação FL7726SH para identificá-la quando seus ocupantes abriram fogo, ferindo o comandante cubano e atingindo a lancha de patrulha 13 vezes. Os guardas revidaram, matando quatro e ferindo seis.
As autoridades apreenderam fuzis de assalto, 134 carregadores com 12.846 munições (5,56x45 mm e 7,62 mm para fuzis AKM), pistolas capazes de perfurar coletes à prova de balas, um drone com duas câmeras, 10 dispositivos de comunicação, facas táticas, um gerador portátil, alicates de corte, uniformes camuflados e emblemas do grupo fascista de exilados “Autodefesa Popular”. Os agressores viajaram em duas embarcações, até que uma delas apresentou problemas durante a viagem.
Um dos agressores mortos e um ferido eram cidadãos americanos, e os demais eram residentes nos Estados Unidos. Um sétimo suspeito confessou ter coordenado a operação de dentro de Cuba.
Até o momento, Washington tem se distanciado do incidente, com o secretário de Estado Marco Rubio negando o envolvimento do governo americano e prometendo uma investigação “independente”. Porém, considerando o destacamento naval dos EUA — sete navios da Guarda Costeira e embarcações de resposta rápida a uma distância correspondente a 24-36 horas das águas do norte de Cuba para fazer cumprir o embargo — é difícil de acreditar que as autoridades americanas não tenham percebido a saída de duas embarcações fortemente armadas da Flórida.
O ataque não só foi autorizado por Washington, como também está incentivando ativamente as redes de fascistas cubano-americanos há muito tempo ligadas à CIA. Essas forças veem a série de operações americanas de mudança de regime em nível internacional como peças de um jogo de xadrez se encaixando. O prefeito de Hialeah, um centro cubano-americano na Flórida, Bryan Calvo, vangloriou-se recentemente ao Politico: “Vejam o que está acontecendo no Irã. Vejam o que aconteceu com a Venezuela… Vocês serão os próximos.”
Em 2 de março, 30 grupos de exilados cubanos assinaram ao fascista “Acordo da Liberdade” pela remoção do regime, prisão de autoridades e instalação de um governo fantoche dos EUA sob o pretexto de uma “transição democrática”.
As declarações de Trump, feitas antes de embarcar no helicóptero Marine One, enquanto aviões já estavam a caminho para bombardear o Irã e matar altas autoridades, expõem a lógica predatória: submeter-se ou enfrentar a destruição.
Trump se vangloriou antes de embarcar, declarando: “Marco Rubio está negociando isso em alto nível... eles não têm dinheiro. Não têm petróleo, não têm comida.”
Notícias anteriores da mídia indicam que Rubio tem mantido conversas para habilitar Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto do líder cubano Raúl Castro e supervisor do conglomerado econômico GAESA, ligado às Forças Armadas.
O governo Trump busca instalar um regime fantoche e transformar Cuba em uma fonte de mão de obra barata para Wall Street, entregando portos, propriedades rurais e minas a corporações americanas, enquanto expulsa a influência russa e chinesa da região. Isso faz parte de uma investida hitlerista pela hegemonia em todo o hemisfério e além, incluindo os esforços de Trump para “controlar” a Venezuela, atacar o México, tomar a Groenlândia, o Canadá e o Canal do Panamá.
Significativamente, o esforço para submeter Cuba pela fome recebeu apoio bipartidário em Washington, sem qualquer tentativa por parte dos líderes do Partido Democrata de bloquear o embargo reforçado.
Após a ordem executiva de Trump de 29 de janeiro, que declarou Cuba uma ameaça de “emergência nacional” para os EUA e impôs tarifas sobre os fornecedores de petróleo, os EUA parecem determinados a continuar privando a ilha de combustível, apesar de terem tomado medidas para garantir a chegada de uma quantidade mínima de combustível.
A Bloomberg noticiou em 27 de fevereiro que o petroleiro russo Sea Horse, que transportava petróleo bruto russo para Cuba, desviou sua rota, mas Washington também emitiu licenças específicas para empresas interessadas em vender petróleo venezuelano para Cuba.
O petroleiro cubano Eugenia, de bandeira liberiana, foi autorizado a abastecer-se com gás liquefeito venezuelano na Venezuela no domingo, conforme confirmado pelo Diario de Cuba. Ainda não está claro como o combustível será vendido em Cuba, dadas as restrições americanas a quaisquer negociações com agências governamentais.
Enquanto navios de guerra americanos reforçam o bloqueio e Cuba não recebe petróleo ou gás desde dezembro, o diretor do Programa de Energia para a América Latina e o Caribe da Universidade do Texas em Austin, Jorge Piñón, disse ao Nation esta semana: “Se não virmos um petroleiro chegar a Havana até meados de março, é o que chamamos de hora zero. Em outras palavras, acabou. Não existe estoque, não há reservas estratégicas, acabou, eles estão fora do mercado.”
Gestos simbólicos zombam do sofrimento: US$ 6 milhões em “ajuda” dos EUA via Igreja Católica; licenças para empresas privadas cubanas comprarem combustível (ignorando o Estado). O México enviou ajuda limitada alimentar ou não relacionada a combustível, e as promessas do Chile, Canadá, China, Europa e países caribenhos permanecem não cumpridas.
Tal isolamento é uma condenação histórica das pretensões anti-imperialistas do nacionalismo burguês. Regimes da “maré rosa” — atualmente no poder no México, Brasil, Venezuela, Nicarágua e Chile — estão cedendo às ameaças de Trump.
Diante do colapso, Havana também está sinalizando se render. Na reunião do Conselho de Ministros de 2 de março, o presidente Miguel Díaz-Canel exigiu “imediatamente” um conjunto de “transformações” no “modelo econômico e social”: autonomia empresarial/municipal, redução do tamanho do Estado, parcerias público-privadas e investimentos cubano-americanos. O objetivo não é apenas receber importações de combustível, mas atender à ampla demanda de Rubio por mudanças “drásticas” no livre mercado.
Durante o ataque com lancha, segundo um comunicado oficial, “aconteceu uma troca de informações quase em tempo real com o contato na Embaixada dos EUA e as autoridades em Miami”. Havana também enfatizou sua “cooperação operacional” com a Guarda Costeira dos EUA em questões de migração, drogas e resgates.
Enquanto isso, a situação da maioria dos cubanos é cada vez mais catastrófica. O economista Omar Everleny Pérez declarou ao El País: “Hoje, Cuba precisa importar quase 95% de suas necessidades alimentares; a produção agrícola e pecuária está gravemente comprometida. A produção industrial está no nível mínimo e, especificamente, a produção de açúcar é insuficiente para atender à demanda de exportação e suprir as necessidades de consumo interno.”
O coordenador da ONU, Francisco Pichón, destacou em um relatório recente que 5 milhões de cubanos com doenças crônicas correm o risco de perder o tratamento em meio ao colapso energético, incluindo milhares de pacientes com câncer que precisam de tratamento oncológico e mais de 32 mil gestantes sem acesso a esses serviços.
Uma trabalhadora de Matanzas e mãe solteira, entrevistada recentemente pelo WSWS, forneceu uma atualização, indicando que os apagões de 20 a 30 horas e a fome persistem:
Não houve nenhuma mudança. Eu poderia lhe contar agora mesmo pelo menos três casos muito lamentáveis (incluindo o da minha avó) de pessoas em hospitais sem tratamento médico e famílias procurando dinheiro para comprar remédios no mercado negro a preços absurdos. Os cortes de energia permanecem iguais ou piores, e as escolas estão praticamente inoperantes ou funcionando em regime de meio período. Ouvi apenas rumores de que vão permitir a importação de gasolina para o setor privado, mas o preço do transporte não caiu um centavo sequer, e quanto ao transporte público, ele simplesmente não existe.
À medida que a “hora zero” de Cuba se aproxima, o apelo feito anteriormente pela trabalhadora de Matanzas para que os trabalhadores americanos e internacionais forcem o fim do embargo ressoa com urgência. Ao mesmo tempo, para lutar contra a agressão imperialista dos EUA e o regime nacionalista burguês em seu próprio país, a classe trabalhadora e a juventude cubanas devem construir uma direção genuinamente socialista, revolucionária e internacionalista como uma seção cubana do Comitê Internacional da Quarta Internacional.
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