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Ascensão de Flávio Bolsonaro nas pesquisas expõe falência do PT e persistência da ameaça fascista no Brasil

No último sábado, enquanto 8 milhões de pessoas marchavam pelos Estados Unidos e internacionalmente nos protestos “No Kings” contra o governo de Donald Trump, articuladores fascistas por trás do regime americano se reuniam em Dallas, Texas, para a CPAC 2026 (Conservative Political Action Conference). O evento contou com a presença de Flávio Bolsonaro, que concorre como candidato da extrema direita nas eleições presidenciais brasileiras de outubro.

Flávio Bolsonaro posando em frente a um bloco de celas na infame prisão CECOT de El Salvador no início deste ano. [Photo: @FlavioBolsonaro]

Em seu discurso na CPAC, Flávio expôs com eloquência a estratégia fascista por trás da sua campanha. Exigindo intervenção direta do imperialismo americano nas eleições brasileiras, ele jurou dar continuidade à conspiração golpista pela qual seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, foi condenado a 27 anos de prisão.

“Eles o chamavam de Trump dos Trópicos”, disse Flávio em referência ao ex-presidente. O conspirador golpista júnior prosseguiu: “A acusação formal é semelhante ao que o presidente Donald Trump enfrentou: insurreição. Familiar? Mas o motivo real é o mesmo. [...] Meu pai lutou contra a tirania da COVID. Ele lutou contra os cartéis de drogas. Ele lutou contra os interesses das elites globais.”

Prometendo seguir o exemplo da ofensiva ditatorial frenética assumida pelo presidente fascista dos EUA ao retornar ao cargo, ele acrescentou: “Trump 2.0 está sendo muito melhor do que Trump 1.0. Não é? Pois bem, Bolsonaro 2.0 também será muito melhor.”

Flávio também expôs a conexão profunda entre a agenda doméstica dos fascistas brasileiros e a colaboração com os objetivos neocoloniais e militares implacáveis do imperialismo americano na América Latina, especialmente na escalada da guerra contra a China. Ele declarou:

O que realmente deve chamar a atenção de vocês é o seguinte. O Brasil será o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido, porque o Brasil é a solução para a América romper a dependência da China sobre minerais críticos, especialmente elementos de terras raras. [...]

[O presidente brasileiro Luiz Inácio] Lula [da Silva] e seu partido são abertamente antiamericanos. Ele fala publicamente sobre minar o dólar como moeda global. Ele alinhou o Brasil com a China em larga escala. Ele se opôs aos interesses da América em cada questão de política externa, criticando publicamente as ações do presidente Trump sobre Venezuela, Irã, Cuba e o combate ao narcotráfico.

Pesquisas de opinião publicadas nas últimas semanas mostraram um aumento das intenções de voto em Flávio Bolsonaro, que vêm crescendo continuamente desde que ele foi indicado por seu pai, em dezembro, como seu candidato presidencial por procuração.

Encerrando sua fala na CPAC com a afirmação categórica de que “vamos vencer” as eleições — lançando as bases para a mesma narrativa de “fraude eleitoral” que esteve no centro das conspirações golpistas de Trump em 2020-21 e de Bolsonaro em 2022-23 —, Flávio declarou:

Meu apelo aqui, não apenas aos Estados Unidos, mas a todo o mundo livre, é este: Observem as eleições do Brasil com enorme atenção.... Monitorem a liberdade de expressão do nosso povo e apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente. Em vez de o governo Biden interferindo nas nossas eleições para instalar um socialista que odeia a América, apliquem pressão diplomática por eleições livres e justas baseadas em valores de origem americana.

A ascensão de Flávio Bolsonaro nas pesquisas provocou desespero no Partido dos Trabalhadores (PT), que busca a reeleição de Lula com uma reedição da “frente ampla” com partidos de direita com a qual foi eleito em 2022. O resultado catastrófico dessa perspectiva política se revela no fato de que, há seis meses das eleições, Flávio já aparece em empate técnico com Lula.

O argumento do PT e da pseudoesquerda de que o julgamento de Bolsonaro e sua cabal militar golpista teria “enterrado” a ameaça fascista no Brasil revela-se não apenas falso, mas politicamente cúmplice da sua ascensão.

Na pesquisa de opinião publicada em 7 de março pelo Instituto Datafolha, Lula apareceu com 38% das intenções de voto contra 32% de Flávio no primeiro turno. Desde dezembro, quando foi realizada a última pesquisa de opinião do Datafolha, o filho de Bolsonaro dobrou suas intenções de voto no primeiro turno. No segundo turno, Lula (46%) e Flávio (43%) aparecem tecnicamente empatados. Em dezembro, Lula tinha uma vantagem de 15 pontos percentuais nas intenções de voto no segundo turno em relação a Flávio.

O Datafolha também apresentou um histórico da avaliação dos presidentes brasileiros no início do terceiro ano de mandato desde o fim da ditadura militar apoiado pelos EUA (1964-1985). Lula concorreu a presidente pelo PT em todas as eleições entre 1989 e 2006, quando concorreu à reeleição depois de vencer pela primeira vez a eleição presidencial em 2002. Em 2006, Lula tinha 38% de avaliação “ótimo/bom”. No final de seu segundo mandato (2007-2010), esse número aumentou para 76%, coincidindo com o boom das commodities impulsionado pelo crescimento chinês, a implementação de limitados programas sociais e antes dos impactos devastadores da crise econômica de 2008. Nesta pesquisa do Datafolha, a avaliação “ótimo/bom” do presidente Lula é de 32%, a menor de todas.

A pesquisa de opinião divulgada em 11 de março pela Quaest confirmou os resultados do Datafolha. No segundo turno da eleição presidencial, a pesquisa mostrou que Lula e Flávio estão empatados com 41% das intenções de votos. Em agosto passado, Lula aparecia na frente com 48% contra 32% das intenções de votos para Flávio. Numa condenação ainda maior ao atual governo Lula, 59% dos entrevistados disseram que Lula “não merece continuar mais quatro anos como presidente” e 43% deles responderam que Lula continuar “dá mais medo” do que a “família Bolsonaro voltar” ao poder (42%).

A reação no PT aos resultados das pesquisas oscilou entre a tentativa de minimizar seus resultados e manifestações de pânico diante da possibilidade de uma derrota eleitoral. O deputado federal Lindbergh Farias, até fevereiro líder do PT na Câmara, escreveu no X que os resultados do Datafolha refletiam uma “nova ofensiva de fake news por parte da extrema direita”, defendendo que a eleição deveria se pautar “sobre a vida do povo brasileiro: menor desemprego da série histórica, aumento real do salário-mínimo, maior renda média da história, inflação sob controle”. Da mesma forma, o presidente do PT, Edinho Silva, declarou que Lula “tem muito o que mostrar” e que “o Brasil nunca viveu na última década um momento tão favorável”.

Esse cenário otimista contradiz diretamente a realidade econômica e social vivida pela maioria da população. Embora a taxa de desemprego tenha atingido 5,1% no trimestre encerrado em dezembro de 2025 — o menor nível desde o início da série histórica —, a qualidade do emprego formal é extremamente precária e a taxa de informalidade permanece em torno de 40%, superando 50% em estados das regiões Norte e Nordeste. Como resultado, o endividamento alcançou em fevereiro 80,2% das famílias brasileiras, o maior nível da série histórica iniciada em 2010. Cerca de 29% da renda mensal dos brasileiros está comprometida com pagamento de dívidas — o maior patamar em pelo menos duas décadas. O Datafolha registrou que a parcela da população que avalia que a situação econômica do país piorou saltou de 35% no primeiro ano do governo Lula para 46% em março de 2026.

“O povo não tem nenhum motivo social ou econômico para votar no Lula”

Internamente, dirigentes do partido qualificaram os resultados das pesquisas como uma “tragédia”, como reportou o Estado de São Paulo. Mais devastador foi um depoimento do deputado federal petista Dionilso Marcon, integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em reunião com ministros do governo Lula: “A saúde está pior do que nos tempos de Bolsonaro. Estou falando do meu estado [Rio Grande do Sul]”. Marcon foi ainda mais direto: “Você acha que quilombola, pescador ou indígena tem algum motivo social, econômico para votar no Lula? Os gaúchos não têm. Está difícil fazer campanha para Lula na agricultura familiar. O povo está bravo com nós mesmos. Nós somos vaiados quando vamos falar. Fui vaiado na Feira da Agricultura Familiar, lá em Sarandi.”

A resposta política do PT às pesquisas não foi recuar na austeridade, mas sinalizar ao grande capital que a direção do próximo mandato é ainda mais “responsabilidade fiscal”. Virtualmente todos os dirigentes do partido, incluindo aqueles considerados mais à esquerda, defenderam publicamente a manutenção do vice-presidente Geraldo Alckmin como companheiro de chapa de Lula.

Como governador de São Paulo por 14 anos (2001-2006 e 2011-2018) pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), Alckmin promoveu cortes brutais a serviços sociais, programas de privatização e repressão feroz a protestos. Na eleição de 2022, ele foi recrutado pela chapa de “frente ampla” do PT por sua estreita relação com o capital industrial e financeiro centrado em São Paulo.

No contexto das eleições presidenciais deste ano, Edinho Silva declarou: “Não é Alckmin que está pedindo para ser nosso vice. Nós queremos Alckmin como vice porque ele é um vice respeitado e reconhecido pelo presidente Lula e ele amplia a nossa capacidade de diálogo na sociedade”.

O conteúdo desse “diálogo” foi bem exposto pelo secretário executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, que declarou no início de março que “o principal desafio, para 2027, é uma agenda ‘forte’ de redução das despesas obrigatórias”, acrescentando que “é preciso normalizar ajustes da Previdência”. Entre os mecanismos cogitados está a alteração do limite de crescimento real do gasto obrigatório, com impacto direto sobre o salário mínimo. O grande capital financeiro recebeu essas sinalizações com satisfação explícita. André Esteves, dono do BTG Pactual, o maior banco de investimento da América Latina — cujo patrimônio pessoal cresceu quase 200% nos últimos 12 meses —, elogiou publicamente o ministro Fernando Haddad no início de fevereiro: “[Há] uma sensação de muito maior equilíbrio depois da sua gestão. O ministro [Haddad] tem um lado muito claro, que é o lado desse país... de um Brasil institucional”.

PT promove aumento histórico dos gastos militares

Paralelamente ao aprofundamento da austeridade social, o governo do PT prepara uma expansão histórica dos gastos militares. Militares apresentaram um plano que prevê investimentos de R$ 800 bilhões (US$ 153 bilhões) em 15 anos, o que significaria R$ 53,3 bilhões (US$ 10,2 bilhões) por ano — 3,6 vezes o orçamento previsto para o ano que vem. O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, defende que o Brasil invista ao menos 2% do PIB nas Forças Armadas.

Essa política de rearmamento é apresentada sob um verniz de defesa da “soberania nacional”, em resposta à crise do imperialismo global e, particularmente, à escalada das intervenções do imperialismo americano sob Donald Trump contra o Brasil e toda a América Latina.

Durante uma recepção em Brasília ao presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, em 9 de março, Lula declarou: “Não sei se o companheiro Ramaphosa percebe que se a gente não se preparar em questão de defesa, qualquer dia alguém invade a gente”. A fala de Lula foi uma clara resposta ao recente lançamento da guerra contra o Irã e a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos. Durante a visita de Ramaphosa, os presidentes formalizaram um acordo de cooperação de defesa entre Brasil e África do Sul focado no desenvolvimento da indústria bélica.

Os investimentos nas Forças Armadas anunciados por Lula representam, ao mesmo tempo, um apelo determinado às forças dentro do Estado brasileiro que apoiaram a tentativa de golpe liderada por Bolsonaro e sua camarilha fascista. A tentativa de comprar apoio dos militares e disputar com Bolsonaro dentro do campo político da extrema-direita marcou todo o governo da “frente ampla” do PT.

O passo mais recente nessa trajetória direitista foi tomado na última terça-feira, 24 de março, quando Lula sancionou o chamado Projeto de Lei Antifacção. Buscando surfar na demagogia “anticrime” das forças fascistas ligadas a Bolsonaro e na própria retórica fraudulenta usada pelo governo Trump para lançar suas incursões imperialistas criminosas, o PT instituiu uma escalada da repressão estatal e punições drásticas contra “facções criminosas”.

O colapso dos índices de aprovação e das intenções de voto em Lula representa uma condenação histórica, não apenas deste último mandato, mas de toda a experiência com o PT no governo. Vendendo-se como um melhor gestor do capitalismo no Brasil, com a ideia de que todas as classes sociais se beneficiariam do crescimento do capital nacional, as gestões do PT mostraram-se incapazes de alterar significativamente a realidade econômica e social do país, que permanece uma das sociedades mais desiguais do mundo.

Durante as últimas eleições municipais no Brasil, em 2024, o Grupo Socialista pela Igualdade (GSI) escreveu: “Após ocuparem o poder por mais de uma década, nutrir as relações mais promíscuas com as empresas e partidos burgueses, e aplicarem ajustes capitalistas contra a classe trabalhadora, o PT e a pseudoesquerda querem apresentar a rejeição que enfrentam dos trabalhadores como produto da confusão, estupidez e vulnerabilidade aos apelos demagógicos da direita”. O que as recentes pesquisas eleitorais manifestam, longe do apelo de massas de Bolsonaro e seu filho boçal, é o genuíno repúdio da classe trabalhadora ao PT e suas falsas promessas.

Esse padrão se repete em escala regional: as políticas demagógicas e pró-capitalistas da Maré Rosa prepararam o terreno ao ascenso recente de Milei na Argentina, de Kast no Chile, de Paz na Bolívia, e uma outra série de figuras fascistoides ao redor da América Latina. Como o WSWS precisou em relação ao fenômeno correlato na Europa, “o fato de a direita estar se fortalecendo tem menos a ver com seu poder intrínseco do que com a completa falência do que se passa por esquerda”. A resposta política necessária ao surgimento do fascismo, da guerra e da ofensiva capitalista é a construção de uma alternativa política revolucionária da classe trabalhadora.

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