Publicado originalmente em inglês em 19 de março de 202
Coincidindo com um apagão total em toda a ilha em 16 de março, o presidente dos EUA, Donald Trump, vangloriou-se diante de repórteres: “Acredito que terei a honra de tomar Cuba. É uma grande honra.”
“Quer eu a liberte, quer a tome, acho que posso fazer o que quiser com ela”, disse Trump, com um ar de gangster que faria até Theodore Roosevelt — o arquiteto da diplomacia do “big stick” — se envergonhar.
Essas declarações arrogantes vêm após uma série de grandes concessões de Havana desde que Trump declarou em 29 de janeiro estado de “emergência nacional” em relação a Cuba e impôs um embargo energético total contra a ilha.
Em questão de semanas, o governo cubano anunciou amplas “reformas” econômicas, expandindo os negócios privados e permitindo parcerias público-privadas; convidou “especialistas” do FBI para a ilha para ajudar a investigar uma incursão armada de terroristas cubano-americanos; cortejou abertamente corporações americanas e capitalistas “gusanos” exilados em Miami; e confirmou atuais negociações com o governo Trump sobre o bloqueio de combustível e a “cooperação em segurança”.
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, denunciou em 18 de março as ameaças “quase diárias” de Trump e prometeu “resistência inflexível”, mas as ações de seu governo sinalizam capitulação. O vice-primeiro-ministro Oscar Pérez-Oliva disse à NBC News que “Cuba está aberta a ter uma relação comercial fluida com empresas americanas” e “também com cubanos residentes nos Estados Unidos e seus descendentes”.
Essa é uma reversão histórica da antiga proibição de Fidel Castro ao capital dos exilados, justificada como uma defesa contra justamente aqueles que buscavam restaurar a era semicolonial por meio de invasões, atentados terroristas e tentativas de assassinato.
No entanto, isso não fez nada para aplacar as exigências da Casa Branca por uma mudança de regime. O secretário de Estado, Marco Rubio, sentado ao lado de Trump no Salão Oval em 17 de março, considerou as medidas pró-negócios de Havana como insuficientes: “Eles não conseguem resolver o problema. Então, precisam mudar drasticamente. O que anunciaram ontem não é drástico o suficiente. Não vai resolver nada.”
O USA Today noticiou que a equipe de Trump está discutindo uma “saída” para Díaz-Canel, a permanência da família Castro na ilha e acordos sobre “portos, energia e turismo” — em outras palavras, um acordo negociado de recolonização.
O cerco dos EUA a Cuba é parte integrante de uma ofensiva imperialista mais ampla, impulsionada pelo “corolário Trump” à Doutrina Monroe, que afirma o direito de Washington de ditar diretamente o destino de todos os países do hemisfério e de se apropriar de todos os seus recursos.
Para além das discussões sobre como isso é apresentado ao público americano, a operação genocida de mudança de regime é apoiada por ambos os partidos e pela grande mídia. O congressista democrata Ro Khanna, considerado parte da ala “progressista” do partido, escreveu de forma favorável no X: “Um acordo permitiria que empresários americanos e cubanos investissem em Cuba e ajudassem o país a se recuperar e modernizar economicamente”.
Na cúpula batizada de “Escudo das Américas” realizada em Miami, no início deste mês, Trump reuniu regimes de extrema-direita e aliados da Argentina, Equador, Paraguai, Chile e outros países do hemisfério em torno de um programa comum: militarização, repressão em massa e um ataque massivo aos padrões de vida e aos programas sociais.
“Cuba está em seus últimos momentos de vida”, declarou Trump aos líderes regionais fascistas, enquanto eles aplaudiam.
Os Estados Unidos estão enviando tropas e abrindo escritórios do FBI e das forças armadas no Equador sob a “Operação Extermínio Total”, alegando estar combatendo “narcoterroristas”. Esse ataque conjunto não só resultou na queima de casas de camponeses, no bombardeio de áreas rurais e na tortura de trabalhadores, como a Colômbia denunciou a morte de 27 pessoas em seu território num ataque aéreo lançado a partir do Equador. Enquanto isso, os tribunais equatorianos suspenderam o principal partido da oposição burguesa, a Revolução Cidadã de Rafael Correa.
O Comando Sul dos EUA está assegurando agressivamente acordos legais para instalação de bases em toda a região e expandindo as operações navais no Caribe e no Pacífico, incluindo uma atual campanha de bombardeios que já ceifou a vida de pelo menos 157 pescadores acusados, sem provas, de tráfico de drogas.
Trump também ameaçou repetidamente a tomada militar do Canal do Panamá e da Groenlândia, além de frequentemente incitar a invasão e o bombardeio do México.
Tratando a Venezuela como um território conquistado, Trump propôs recentemente nas redes sociais que a Venezuela poderia se tornar o 51º estado dos EUA, seguindo declarações semelhantes sobre o Canadá. O sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, em meio a uma campanha de bombardeios em Caracas, abriu o país para a CIA e para a pilhagem corporativa de suas riquezas petrolíferas e minerais.
Com o secretário do Tesouro de Trump declarando a Argentina a “peça central” da estratégia dos EUA na região, Javier Milei cedeu o controle do Atlântico Sul ao Pentágono sob o pretexto de combater as operações de pesca chinesas, impôs uma “reforma” trabalhista explicitamente voltada para apagar mais de 100 anos de conquistas dos trabalhadores e defendeu os crimes da última ditadura militar apoiada pelos EUA.
Após o apoio coercitivo fornecido a candidatos de extrema-direita na Argentina, Honduras e Costa Rica, Trump apoiou a eleição de José Antonio Kast no Chile, um admirador declarado da ditadura de Augusto Pinochet que já está implementando um programa de terapia de choque econômico inspirado nas políticas de Milei.
Isso não é apenas geopolítica; é guerra de classes. O objetivo é eliminar as conquistas sociais e democráticas obtidas pelos trabalhadores das Américas ao longo do século XX, completando a contrarrevolução social iniciada pelas ditaduras militares no século passado. Isso é inseparável dos esforços de Trump para construir um regime fascista em seu próprio país.
A punição coletiva de Cuba
Mesmo sem um míssil disparado contra a ilha, o estrangulamento econômico de Cuba está produzindo uma devastação em uma escala comparável apenas à guerra. Após a deposição de Maduro no início de 2026, os EUA cortaram as exportações de petróleo venezuelano e ameaçaram o México e outros fornecedores com tarifas exorbitantes caso exportassem combustível para Cuba. A presidente do México, Claudia Sheinbaum, suspendeu as exportações de petróleo em janeiro. Brasil e Colômbia — ambos governados por líderes de “esquerda” e grandes exportadores de petróleo — também se recusaram a romper o embargo.
Isso não é mera capitulação, mas sim cumplicidade na defesa de interesses capitalistas locais que buscam se posicionar como parceiros minoritários na divisão neocolonial do hemisfério promovida por Washington.
O isolamento de Cuba é gritante. O Equador expulsou diplomatas cubanos; a Nicarágua restringiu a isenção de visto para cubanos; e países como Guatemala, Honduras e Jamaica encerraram acordos de cooperação médica que forneciam a Havana divisas vitais.
A rede elétrica de Cuba, dependente de usinas termelétricas obsoletas da era soviética que queimam petróleo bruto pesado e de uma complexa rede de geradores a diesel, foi levada ao limite. Em 16 de março, toda a rede nacional entrou em colapso, mergulhando a ilha na escuridão. Após 29 horas, a energia foi apenas parcialmente restabelecida.
Uma trabalhadora em Matanzas relatou ao WSWS que dias se passaram sem eletricidade em seu bairro. A água potável é escassa, enquanto o gás de cozinha é simplesmente inacessível. Ela contou que um parente próximo faleceu recentemente em decorrência do colapso do sistema de saúde, que já está ceifando inúmeras vidas.
O sistema médico tem uma lista de espera de quase 100 mil procedimentos “não urgentes”, incluindo mais de 11 mil crianças. Em muitos casos, “não urgente” significa simplesmente “ainda não morreu”.
O analista de energia Jorge Piñón alertou: “Nunca vi ou estudei um país onde 100% do combustível tenha desaparecido”.
Nessas condições, aconteceram protestos pequenos, mas significativos: estudantes universitários realizando ocupações contra o colapso do ensino, bairros operários batendo panelas e frigideiras para exigir eletricidade e comida, e tumultos como o recente em Morón, onde manifestantes incendiaram móveis em um escritório do Partido Comunista.
Uma frente na marcha para abolir o século XX
O ataque imperialista contra Cuba tem um caráter distintamente vingativo. Washington não está apenas buscando interesses corporativos e financeiros; está travando uma campanha simultânea de retaliação histórica contra duas revoluções — a de 1959 em Cuba e a de 1979 no Irã — que derrubaram regimes fantoches dos EUA.
Como insistiu o Comitê Internacional da Quarta Internacional, a revolução cubana não representou uma inversão socialista das relações de propriedade capitalistas sob a direção consciente da classe trabalhadora. Em vez disso, suas expropriações de propriedades corporativas americanas, reformas agrárias e medidas sociais nas áreas da saúde e educação foram uma variante radical dos movimentos nacionalistas burgueses e anticoloniais que ascenderam ao poder em grande parte do mundo no século XX, inspirados, em última análise, pela Revolução Russa de 1917.
Hoje, sob o jugo da crise capitalista global e da escalada bélica, as classes dominantes estão determinadas a “abolir o século XX” — a retornar a humanidade às condições do século XIX: exploração desenfreada, subjugação colonial e domínio policial-militar irrestrito.
O think tank americano Jamestown Foundation observou, em um relatório de janeiro, que a queda de Cuba “seria percebida pelo Sul Global como a prova definitiva da incapacidade da Rússia, da China ou de qualquer outro país de funcionar como um centro alternativo de poder”.
A reação dos governos da chamada “Maré Rosa” na América Latina, juntamente com a Rússia e a China, à situação de Cuba expõe sua falência e a fraude da “integração regional” ou através dos BRICS como contrapeso ao imperialismo americano.
Mas o ataque violento contra Cuba e a tentativa de forjar um eixo contrarrevolucionário de regimes de extrema-direita na América Latina são sinais não da força do imperialismo dos EUA, mas sim de sua profunda fraqueza.
A agonia de Cuba está ligada ao colapso mais amplo da ordem mundial pós-1945, que se baseava na hegemonia econômica e militar dos EUA, e à impossibilidade de reconstruir essa ordem em qualquer outra base capitalista, incluindo a multipolaridade.
Por uma ofensiva internacional da classe trabalhadora
Se o estrangulamento de Cuba não pode ser interrompido apelando para governos burgueses-nacionalistas cúmplices, em que bases sociais ele pode ser combatido?
A resposta reside na classe trabalhadora internacional. O cerco a Cuba é inseparável do ataque aos trabalhadores em todos os lugares, inclusive nos próprios Estados Unidos. A alta dos preços do petróleo, impulsionada pela guerra criminosa contra o Irã, já está alimentando a inflação e a austeridade que remetem à década de 1970, quando os choques do petróleo provocaram lutas de classes massivas na América Latina e em outros lugares.
A resposta de classe à tortura de Cuba deve ser organizada como parte de uma luta mais ampla contra a guerra imperialista e a contrarrevolução social. Os trabalhadores nos EUA, Canadá, América Latina e internacionalmente devem exigir o fim imediato e incondicional do embargo e de todas as sanções para acabar com a fome da classe trabalhadora cubana, permitindo que ela acerte as contas com sua própria elite dominante.
A defesa de Cuba não é uma questão “nacional” no sentido há muito defendido pelas organizações stalinistas e pseudoesquerdistas.
Como David North explicou em sua palestra de 1993, “Revolução Permanente e a Questão Nacional Hoje”, Trotsky demonstrou que o imperialismo “sinalizou o fim do próprio Estado-nação”. Além disso, “a impossibilidade de resolver, na época do imperialismo, qualquer um dos problemas básicos da humanidade em âmbito nacional” tornou a perspectiva de “libertação nacional” sob uma direção burguesa nativa uma utopia reacionária. O histórico de Castro e da miríade de ícones da “libertação nacional” comprovou isso: todos se basearam em uma estrutura de Estado-nação, buscaram o equilíbrio entre imperialismo e stalinismo e deixaram a classe trabalhadora pagar o preço à medida que seus supostos ganhos desmoronavam.
A atual onda de capitulação dos governos de Cuba e Venezuela, juntamente com o restante da “Maré Rosa”, confirma negativamente a Teoria da Revolução Permanente de Trotsky: na época do imperialismo, nenhuma das tarefas democráticas e sociais fundamentais enfrentadas pelos países oprimidos pode ser resolvida em âmbito nacional sob direções burguesas ou pequeno-burguesas. A única base viável para a defesa de Cuba — e de todas as conquistas dos trabalhadores no século XX — é a mobilização internacional e independente da classe trabalhadora pelo poder, como parte da revolução socialista mundial.
Isso significa a construção de partidos genuinamente revolucionários em Cuba e em toda a América Latina, como seções do Comitê Internacional da Quarta Internacional, para dotar a iminente erupção da luta de classes de uma direção socialista consciente.
