O World Socialist Web Site e o Grupo Socialista pela Igualdade (GSI) do Brasil repudiam com veemência a condenação criminal de José Maria de Almeida — o “Zé Maria” —, presidente do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), a dois anos de prisão por suposto crime de racismo em críticas ao genocídio palestino pelo Estado sionista israelense. A sentença proferida pelo juiz Massimo Palazzolo constitui uma fraude jurídica e um grave ataque aos direitos democráticos e à liberdade de expressão no Brasil.
A base da condenação é um discurso proferido por Zé Maria em um protesto em São Paulo, em 22 de outubro de 2023 — duas semanas após o início do bombardeio genocida de Gaza. No discurso, ele declarou que “todo ato de força, todo ato de violência do povo palestino contra o sionismo é legítimo”, defendendo o fim do Estado sionista e “uma Palestina laica, democrática, do Rio Jordão ao mar”. Por essas palavras, a Confederação Israelita do Brasil (Conib) e a Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp) acionaram o Ministério Público Federal, acusando-o de “disseminar ódio racial” e de pregar “a expulsão dos judeus de sua terra ancestral”. O juiz Palazzolo acatou a acusação, afirmando que as falas de Zé Maria apresentavam “teor degradante, generalista e de cunho preconceituoso” em relação tanto à “comunidade judaica” quanto ao “movimento sionista” — equivalendo, fraudulentamente, a crítica ao sionismo como ataque ao povo judeu.
A sentença é uma fabricação politicamente motivada e uma agressão à consciência política de milhões de trabalhadores e jovens no Brasil e no mundo.
O PSTU anunciou que recorrerá da decisão ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região. Em nota oficial, o partido qualificou a condenação como destituída de “qualquer sustentação histórica, política ou legal”, denunciou o processo como “uma campanha de perseguição e assédio judicial” movida por organizações sionistas, e reafirmou sua “defesa incondicional do povo palestino, contra o genocídio e pelo fim do Estado sionista, racista e colonialista de Israel”.
Uma campanha orquestrada pela extrema-direita
Esta condenação não é um episódio isolado. Ela é o desenvolvimento mais grave — até o momento — de uma campanha sistemática, movida pela Conib e pela Fisesp em articulação com forças de extrema-direita, para suprimir o discurso de esquerda no Brasil sob o pretexto de combater o antissemitismo.
Logo após o início da guerra de Israel contra a Palestina, em outubro de 2023, essas e outras organizações judaicas na América Latina tentaram, sem sucesso, censurar a turnê “This is Not a Drill” do cantor Roger Waters. Os shows dele no Brasil, Argentina, Uruguai e Chile, cheios de referências ao genocídio em Gaza e de denúncias às potências imperialistas, atraíram dezenas de milhares de pessoas.
Em dezembro de 2023, a Conib acionou a Polícia Federal contra o jornalista Breno Altman, fundador do Opera Mundi, por publicações feitas no próprio dia 7 de outubro — ação que o TRF-3 suspendeu em março de 2026, reconhecendo que se tratava de opinião política protegida pela liberdade de expressão. Em julho de 2024, Rui Costa Pimenta e Francisco Weiss Muniz, do Partido da Causa Operária (PCO), também foram convocados a prestar depoimento à Polícia Federal em investigação de “intolerância e/ou injúria racial”, igualmente por provocação da Conib.
O caso Zé Maria é o primeiro a resultar em condenação criminal. E a composição do processo expõe seu caráter político: Conib e Fisesp habilitaram-se como assistentes de acusação com seis advogados constituídos, e entre suas testemunhas estava Fernando Kasinski Lottemberg — ex-presidente da Conib e atual Comissário da Organização dos Estados Americanos para o Monitoramento do Antissemitismo — cargo criado em 2021 com o propósito explícito de promover a adoção da definição de antissemitismo da IHRA (Aliança Internacional para a Memória do Holocausto) nos países da região. Esta definição é precisamente aquela que fraudulentamente equipara a crítica ao Estado de Israel com antissemitismo.
A Conib não é uma representante legítima da comunidade judaica brasileira. É uma plataforma para a extrema-direita fascistoide e suas conspirações contra a democracia no país. Tendo impulsionado a candidatura de Jair Bolsonaro em 2017, a Conib reuniu em sua mais recente convenção, em novembro de 2025, os candidatos alternativos da extrema-direita, Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado e Cláudio Castro.
Um fenômeno internacional
O que ocorre no Brasil não é uma aberração local: é parte de um processo internacional de criminalização da oposição ao genocídio em Gaza e ao imperialismo. Nos Estados Unidos, o governo Trump promoveu a revogação de vistos de estudantes internacionais, a detenção de ativistas pró-Palestina e a abertura de investigações em dezenas de universidades — tudo sob o rótulo de “combate ao antissemitismo”. Na Grã-Bretanha, o governo trabalhista de Keir Starmer proscreveu o grupo Palestine Action como organização terrorista e prendendo mais de 3.300 pessoas por protestos em solidariedade à Palestina. Na Austrália, a polícia de Queensland deteve manifestantes por utilizar o slogan “Do Rio ao Mar”, classificado como “discurso de ódio”. Na Argentina, Alejandro Bodart dirigente do MST, enfrentou processo criminal por publicações em que chamava Israel de “Estado racista e genocida” — caso cujo alicerce jurídico foi, novamente, a definição da IHRA.
O objetivo desta campanha é silenciar não apenas a oposição ao genocídio em Gaza, mas a todos os ataques desencadeados pela elite dominante mundial contra os direitos sociais e democráticos da classe trabalhadora internacional. A atual guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, sem dúvida, intensificará a crise capitalista global — e, com ela, as mobilizações da juventude e dos trabalhadores contra todos os seus efeitos: inflação, austeridade e militarismo.
O GSI, independentemente de suas diferenças políticas com o PSTU, defende integralmente seus direitos políticos e exige o arquivamento imediato da condenação de Zé Maria e de todos os processos correlatos. Convocamos os trabalhadores e a juventude brasileira a oporem-se a este ataque às liberdades democráticas fundamentais.
