Publicado originalmente em inglês em 27 de março de 2026
Centenas de milhares de pessoas protestaram por toda a Argentina na terça-feira para marcar os 50 anos do golpe militar de 24 de março de 1976 apoiado pelos Estados Unidos. Foi a maior manifestação até agora durante o governo do presidente fascistoide Javier Milei.
Sob o lema “Memória, Verdade e Justiça”, as manifestações convocadas por organizações de direitos humanos e familiares das vítimas da ditadura levaram multidões às ruas de Buenos Aires e de dezenas de outras cidades para denunciar os crimes da ditadura e as tentativas do governo Milei de reabilitar a junta militar e intensificar seus ataques aos direitos sociais e democráticos.
Em 24 de março de 1976, as Forças Armadas deram início ao golpe há muito preparado, tomando as instituições do Estado em um ataque coordenado. Nas primeiras horas da manhã, tropas cercaram a Casa Rosada e detiveram a presidente Isabel Martínez de Perón, levando-a de helicóptero para fora do palácio presidencial, enquanto tanques e soldados assumiam o controle de Buenos Aires.
Uma junta apoiada pelos Estados Unidos e liderada pelo general Jorge Rafael Videla assumiu o poder, dissolveu o Congresso, proibiu a atividade política e os direitos sindicais e pôs em marcha a máquina do terror de Estado — centros de detenção clandestinos, tortura, desaparecimentos e uma “reestruturação” econômica sistemática em benefício do capital financeiro e da classe dominante argentina.
Estimativas da mídia apontam que a multidão presente na terça-feira em Buenos Aires variou entre 600 mil e 2 milhões de pessoas, com outras dezenas de milhares protestando em Córdoba, Rosário, La Plata e outros centros urbanos. No final da tarde, em uma Praça de Maio lotada, foi lida uma declaração conjunta adotada por organizações de direitos humanos, destacando décadas de luta contra a impunidade de que gozam os oficiais militares responsáveis por um genocídio político e pelas operações terroristas dos esquadrões da morte da Triple A sob o governo peronista que precedeu o golpe.
A magnitude e o clima combativo dos protestos refletiram tanto uma identificação viva com as dezenas de milhares de pessoas assassinadas entre 1976 e 1983 quanto uma raiva crescente contra as medidas autoritárias do governo Milei.
Nesse contexto, o governo lançou uma grotesca contraofensiva ideológica. Sob o slogan reacionário do “Dia da Memória pela Verdade e Justiça Plenas”, o governo Milei divulgou um vídeo de mais de uma hora intitulado “As Vítimas que Eles Queriam Esconder”.
O vídeo se concentra em dois casos cuidadosamente selecionados para relativizar o terror de Estado e justificar os crimes do aparato da ditadura. O primeiro é o da “neta 127”, filha dos guerrilheiros montoneros Carlos Poblete e Carmen Moyano, que foram sequestrados em Mendoza. A filha recém-nascida deles foi entregue ao agente de inteligência e torturador condenado Armando Fernández, da unidade D2 em Mendoza, e à sua esposa, retratando o ato como um ato de caridade. O segundo depoimento é do filho de Argentino del Valle Larrabure, um oficial do Exército sequestrado pelo ERP em 1974. Apesar de todas as evidências disponíveis apontarem para suicídio, o filho insiste que ele foi executado. O vídeo alega que o número amplamente reconhecido de 30 mil vítimas da ditadura é exagerado e que os verdadeiros “criminosos” da época foram os guerrilheiros, enquanto o aparato da ditadura aparece como legitimamente travando uma “guerra” contra “terroristas”.
As organizações da pseudoesquerda ligadas à Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidade (FIT-U) que participaram dos protestos de terça-feira denunciaram a cumplicidade do peronismo em preparar o terreno para o golpe e seu papel atual em facilitar o programa de Milei, apenas para ocultar sua própria responsabilidade ao apelar para essas forças.
Na verdade, sua intervenção teve como objetivo principal canalizar a onda de oposição de volta para a burocracia sindical peronista e a “oposição” parlamentar, exigindo uma greve geral e manobras legislativas.
No centro de sua agitação estava a campanha da direção da FIT-U no Sindicato Único dos Trabalhadores da Indústria de Pneus da Argentina (SUTNA) em torno do fechamento da icônica fábrica de pneus FATE no mês passado. Em vez de lutar para mobilizar os trabalhadores de forma independente, o SUTNA e seus dirigentes pseudoesquerdistas subordinaram a luta a apelos aos partidos burgueses. Sua última manobra é pressionar os legisladores provinciais — incluindo peronistas de direita e radicais (UCR) — para aprovar um projeto de lei exigindo que o governo provincial peronista de Buenos Aires assuma o controle da fábrica. O principal efeito dessa orientação é alimentar a ilusão de que o peronismo pode ser pressionado a defender empregos e direitos.
Os 50 anos do golpe ocorreram em meio a uma catástrofe econômica cada vez mais grave e a uma liquidação histórica de setores inteiros da indústria argentina, à medida que o governo Milei impõe os ditames do capital financeiro. Dados oficiais indicam que, somando-se trabalhadores assalariados e autônomos, cerca de 540.872 empregos formais foram perdidos nos dois primeiros anos do mandato de Milei, incluindo quase 90.000 no setor público. O ajuste reduziu a renda real, diminuindo ainda mais a demanda por bens.
Segundo o jornalista Sergio Ferrari, a participação do trabalho na renda nacional representava cerca de 45% em 1974; em 1982, perto do fim da ditadura, havia caído para 22%. Hoje, situa-se em aproximadamente 36%.
O programa que Milei está implementando com o apoio do FMI e do governo Trump é essencialmente o mesmo que foi levado a cabo após o golpe de 1976: erradicar o que resta das conquistas sociais obtidas pela classe trabalhadora no século XX, o que só pode ser realizado por meio de formas ditatoriais de governo.
Entre seus ataques mais agressivos às formas limitadas de democracia restauradas após 1983 está a eliminação de fato do direito à greve em amplos setores considerados “essenciais”, um rigoroso protocolo “antipiquete” que legitima a repressão policial para dispersar bloqueios de estradas e piquetes de greve, e um decreto de janeiro que concede às agências de inteligência poderes para deter, prender e revistar pessoas sem mandado judicial — aproximando-se da autoridade irrestrita exercida nos “desaparecimentos” da junta.
A alta vertiginosa dos preços está agravando a crise. Em Buenos Aires, o preço da gasolina comum subiu 63,6% em um ano — muito acima da inflação geral, que ficou em cerca de 33% no mesmo período. Essa aceleração, segundo a mídia argentina, intensificou-se nas últimas semanas devido à guerra dos EUA e de Israel contra o Irã.
O golpe de 1976 continua sendo uma ferida aberta. No início deste mês, a Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF) anunciou a identificação de 12 pessoas que foram detidas e “desapareceram” durante a ditadura, por meio de uma análise meticulosa de restos ósseos recuperados do centro de detenção clandestino La Perla, onde se estima que entre 2.200 e 2.500 pessoas foram mantidas em cativeiro, torturadas e desapareceram.
Essas descobertas ressaltam que o que ocorreu não foi uma “operação antiterrorista”, como afirma Milei, mas o uso de métodos próprios da ditadura militar e do fascismo para esmagar uma poderosa mobilização da classe trabalhadora que representava um desafio revolucionário vindo de baixo.
Para munir a classe trabalhadora com as lições dessa história, é necessário examinar o papel das tendências de esquerda da época. Em uma declaração de 1987, o Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) resumiu o papel do Secretariado Unificado pablista, que buscava liquidar o movimento trotskista:
Na Argentina, onde as condições mais favoráveis para a revolução proletária amadureciam rapidamente, as forças do Secretariado Unificado não estavam apenas divididas, mas se viram, na verdade, em lados opostos das barricadas. A fração de [Ernest] Mandel foi liquidada em uma guerra de guerrilha infrutífera e isolada da classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, a fração de [Joseph] Hansen — liderada por [Nahuel] Moreno — defendeu o próprio Estado que estava levando a cabo a liquidação física daqueles que estavam alinhados com Mandel.
Tendo concluído que “o dogma de que a única classe capaz de cumprir as tarefas democráticas é a classe trabalhadora é falso”, o revisionista argentino Moreno e seu Partido Socialista dos Trabalhadores (PST) juraram lealdade à “estabilidade constitucional”, aliando-se aos stalinistas e peronistas.
Em 28 de março de 1974, em meio a uma polarização crescente, o presidente Juan Domingo Perón convocou oito partidos, incluindo o PST, que então publicou um editorial afirmando: “Os participantes confirmaram seu compromisso fundamental de não poupar esforços para manter e consolidar o processo de institucionalização em nosso país, no contexto do sistema democrático e por meio da prática da coexistência e do diálogo construtivo.”
Em 5 de abril, Juan Carlos Coral, do PST, reuniu-se novamente com Perón e as forças da oposição, descrevendo a participação como “obrigatória em todas as etapas deste laborioso processo que envolve a democracia constitucional”. Lenin escreveu que tais apelos piedosos à democracia perante a burguesia equivalem a “pregar moralidade aos donos de um bordel”.
Como explicou o CIQI: “Nessa situação, o partido ‘de esquerda’ que apela ao Estado burguês para proteger os trabalhadores — em vez de exortar os trabalhadores a se armarem e esmagarem os fascistas e o Estado que os patrocina — é ele próprio parte integrante de toda a ordem burguesa reacionária.”
Após a morte de Perón, o PST participou de uma reunião “multissetorial” em 8 de outubro de 1974 com sua viúva e sucessora, Isabel Perón, e escreveu: “Digamos que nosso partido considera útil essa forma de diálogo, que não tem precedentes no país… O PST continuará lutando contra todos os fatores que criam o clima golpista e lutará pela continuidade deste governo porque ele foi eleito pela maioria dos trabalhadores argentinos e porque permite o exercício de alguns direitos democráticos que, por sua vez, são conquistas das mobilizações dos trabalhadores e do povo que abalaram o país desde o Cordobazo.”
Enquanto isso, o regime peronista organizava os esquadrões da morte da Triple A contra trabalhadores militantes e guerrilheiros.
Essa capitulação total ao peronismo, por um lado, e ao guerrilheirismo suicida, por outro, levou ao desarmamento político da classe trabalhadora antes do golpe de 1976. Centenas de militantes de ambos os campos foram posteriormente assassinados, mas, como observou o CIQI, “os líderes que os traíram tiveram melhor sorte. Moreno fugiu para a Colômbia. Quanto a Mandel, ele continuou a comer croissants na Bélgica”.
A declaração do CIQI concluiu: “A política do PST desarmou a classe trabalhadora argentina, desmoralizou seus elementos avançados e abriu caminho para o golpe de 1976. Moreno foi politicamente responsável pela morte de milhares de pessoas.”
Hoje, os sucessores de Moreno continuam a reivindicar a herança da Quarta Internacional e de Trotsky enquanto preparam uma traição semelhante. Os morenistas em torno do site La Izquierda Diario passaram a se chamar “Corrente Revolução Permanente” para se apropriarem melhor do prestígio de Trotsky, apenas para renunciar explicitamente à sua Teoria da Revolução Permanente, que afirma a necessidade do poder operário como parte de uma revolução socialista que se estenda aos países capitalistas avançados como única base para derrotar o imperialismo e cumprir outras tarefas democráticas.
Essas tendências estão novamente conduzindo a classe trabalhadora por um caminho traiçoeiro, acorrentando-a ao peronismo e à burocracia sindical, justamente quando o capital argentino e internacional, apoiado pelo imperialismo americano, avança a passos largos em direção ao fascismo.
A imensa mobilização de 24 de março demonstra a força social potencial para um verdadeiro acerto de contas com os crimes de 1976-83 e para uma luta contra a tentativa de “abolir” as conquistas do século XX. Mas esse potencial só pode ser concretizado por meio de uma ruptura com todos os partidos burgueses, incluindo os da FIT-U, e da construção de uma direção revolucionária baseada no programa do Comitê Internacional da Quarta Internacional para liderar a classe trabalhadora na Argentina e internacionalmente em uma ofensiva socialista contra a guerra, a ditadura e o capitalismo.
